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GENTE DA NOSSA GENTE| As artesãs de Várzea Queimada que conquistaram o Brasil e Mundo

Todo o trabalho é realizado no espaço da associação, denominado por elas de “Toca”. Elas trabalham a fibra da carnaúba e produzem diversos produtos, como bolsas, malas, luminárias, dentre outros.

FOTO: Reprodução

No meio do árido sertão piauiense está a comunidade da Várzea Queimada, no município de Jaicós. O lugar, cercado de morros rochosos, caracteriza-se pela forte presença das carnaubeiras. A carnaubeira é uma árvore considerada sagrada pelos índios do Nordeste e aqui pode-se dizer que é a árvore da vida, das tradições e do conhecimento de um povo.

Na sua origem, essa região foi habitada por índios. Posteriormente, chegaram nessas terras os colonizadores portugueses, trazendo escravos. A cultura deste lugar tem, portanto, forte influência de cada um destes povos. Os costumes e tradições de seus ancestrais permanecem vivos na memória e no cotidiano deste povo.

A Várzea Queimada possui cerca de 1000 moradores. O lugar mudou de status depois da criação da Associação de Mulheres da Várzea Queimada (AMVQ), criada em 2011. A associação é composta por 30 mulheres que, com suas mãos hábeis, levam muito mais que artesanato às diferentes regiões, levam seus valores, sua cultura e seu conhecimento ancestral.

FOTO: Otávio Veloso

Todo o trabalho é realizado no espaço da associação, denominado por elas de “Toca”. Elas trabalham a fibra da carnaúba e produzem diversos produtos, como bolsas, malas, luminárias, dentre outros.

No ano de 2011, Marcelo Rosenbaum, um dos mais aclamados designers da atualidade, foi até a associação para conhecer as mulheres artesãs e em 2012 iniciou ali uma obra do seu projeto, o A Gente Transforma. Para Marcilene Barbosa, presidente da associação, o projeto AGT fez com que se mudassem todas as perspectivas daquelas mulheres, fazendo com que elas vissem a importância de seu trabalho e despertassem o orgulho por sua tradição.

FOTO: Reprodução

“Com a presença do “A Gente Transforma”, toda a comunidade realmente se transformou. Nós resgatamos de si mesmas a autoestima, a valorização da nossa cultura, dos nossos produtos, da nossa mão de obra”, nos conta Marcilene.

A associação recebeu visitas de artesãos, arquitetos, designers e decoradores. Um dos trabalhos desenvolvidos com parcerias foi a coleção de luminárias Toca de Luz, tendo participação da Casa Vogue, que já levou trabalhos das artesãs para a exposição Luminaire Lab, em Miami.

Os produtos são enviados para vários estados do Brasil, como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Distrito Federal, dentre outros. Alguns países do mundo também já receberam os produtos, como Itália, Holanda e Estados Unidos. Em alguns períodos, a demanda é tanta que elas buscam outras mulheres da comunidade para ajudá-las.

FOTO: Reprodução

A Coleção Toca já foi apresentada no Salão do Design de Milão e já foi utilizada como inspiração para decoração no São Paulo Fashion Week, no verão de 2012.

Escrevo como colunista, mas posso afirmar, como um dos tantos que visitam a comunidade, que estive diante de um grande instrumento de transformação da realidade. Ressalta-se nesse projeto a valorização da identidade cultural e dos saberes revividos em cada trançado de palha. É tocante ver que uma técnica dos ancestrais desse povo, realizada de forma sustentável, permanece viva até hoje. Por isto, entrevistei Marcilene Barbosa, a presidente da associação que  contou um pouco mais sobre o trabalho das mulheres artesãs.

Marcilene Barbosa
FOTO: Reprodução

Conte-nos um pouco de como como tudo começou.

A associação foi fundada em fevereiro de 2011, com intuito de geração de renda para as mulheres da comunidade. Teve como mentora da associação a Silvana, que pediu ajuda ao Everton, de Santa Catarina, que veio fazer uma pesquisa de tese. São trinta sócias ativas e nós enviamos produtos principalmente para Sul e Sudeste.

O que mudou com a visita do Marcelo Rosenbaum, com o projeto AGT?

Com a visita do A Gente Transforma, no final de 2011, a primeira mudança foi na expectativa de todas. Quando ele retornou em 2012 foi que aconteceu toda a transformação, com o trabalho que o AGT desenvolveu, com os protótipos que eles desenvolveram, com as peças e novos designs. Não só a associação, mas a nível de comunidade modificou tudo. Passamos a ter rotina diferente. Nosso sonho mudou, nossa renda também. Nós resgatamos de si mesmas a autoestima, a valorização da nossa cultura, dos nossos produtos, da mão de obra. Passamos a ver que a gente tinha um valor, até então ignorado e desconhecido. O nosso dia a dia mudou. Despertou olhares para outra realidade. Passamos a acreditar mais na nossa capacidade e vimos que a gente poderia ir muito mais além do que a gente imaginava. A presença do AGT na nossa comunidade foi um choque para que a gente pudesse despertar para o real. Para uma realidade que nos jogasse para nível de Brasil, porque, até então, nós éramos uma comunidadezinha. Nosso mundo era Várzea Queimada. A partir daí, nosso limite é o mundo. Nosso sonho não tem limites.

Qual a importância desse projeto na vida das pessoas da comunidade local?

O projeto em si é importante porque ele veio valorizar nossa cultura, transformar nossas vidas. Porque não dizer transformar até sonhos. Sua importância está na valorização do trabalho da comunidade, da geração de renda. Ele fez o resgate de cultura, fez com que várias pessoas da comunidade conhecessem sua própria história, que não era conhecida e que as pessoas não procuravam conhecer. E hoje, a maior parte da comunidade sabe de sua origem, de sua história e conhece seus antepassados. Ou seja, veio fazer esse resgate cultural. Ele é importante pelo resgate da autoestima. Ele é importante por ter trazido outros projetos. Ou seja, o AGT é uma porta que se abriu para que outros projetos viessem a acontecer na comunidade. Nós já temos frutos disso, temos o projeto Agrofloresta, o turismo na comunidade, o resgate das danças, tudo isso deu certo. O AGT hoje é importante na comunidade por tudo isso. O AGT fez com que a gente se tornasse reconhecidos nacionalmente. E através dele nos mostrasse o valor que tem a Várzea Queimada.

Como vocês estão nesse momento difícil que o país enfrenta?

Nesse momento de pandemia, a geração de renda estagnou, nós não temos. Estamos buscando pontes para que depois desta pandemia as coisas continuem. Estamos tendo dificuldades, pois não temos como estar enviando nossos produtos. Estamos negociando com lojas para que quando tudo voltar a gente possa seguir a nossa vida. Através do projeto, a comunidade foi beneficiada com doações, que chegaram na hora certa. Essa ajuda foi distribuída para aquelas pessoas mais necessitadas, que estavam já sem condições para se alimentar, até que tudo se regularizasse com o auxílio emergencial.

Confiram mais fotos do trabalho das artesãs que está sendo comercializado através de contato via internet ou telefone com a Presidente da Associação, Marcilene Barbosa.

Por Daniel Gomes

Bacharelando em Administração pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), funcionário público. Entusiasta de questões ambientais, participa de projetos do Núcleo de Economia Circular, Inovação e Sustentabilidade (NECIS) em Petrolina-PE.

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