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Cajuína do Piauí conquista alta gastronomia e bares da moda de SP

responsável pela conquista da cajuína do Piauí da alta gastronomia é a marca Anjos do Sertão.

A cajuína do Piauí, bebida que é patrimônio cultural e típica do estado, conquistou, com sua cor dourada, a     alta gastronomia e os bares da moda de São Paulo. A cajuína piauiense é usada na redução para dar maior sabor aos pratos e em drinks descolados nos bares paulistanos, conquistando os consumidores da classe social A.

A responsável pela conquista da cajuína do Piauí da alta gastronomia é a marca Anjos do Sertão, que é produzida na Fazenda Santa Fé, na zona rural do município de Canto do Buriti (521 km de Teresina), que também beneficia castanhas de caju.

Crédito: Efrém Ribeiro

Paulista, descendente de alemães, o assistente geral da Fazenda Santa Fé, John Fladt, disse que a cajuína Anjos do Sertão está em restaurantes tops de São Paulo, atingindo o público A, como a Padoca do Mani, de Helena Rizzo, uma das maiores chefs de cozinha do planeta.

“A Padoca do Mani é uma padaria muito chique e estamos em nove restaurantes na região de Pinheiros, Vila Madalena, em algumas cafeterias, como a Black´n Loud, restaurantes típicos e casas do Norte, que já têm um público nordestino. O difícil é que a cajuína não é um produto conhecido. Você tem que abrir o mercado, não tem um mercado para a cajuína em São Paulo. Você tem que chegar no mercado e explicar para as pessoas o seu projeto. Quanto mais a gente fala de nossa fazenda, mais eles vão se interessar pelo produto. Sobre o produto, em si, as pessoas sabem muito pouco”, afirma John Fladt, que estudou Economia na Universidade de São Paulo (USP).

Crédito: Reprodução/Instagram

Crédito: Efrém Ribeiro

Para John Fladt, a cajuína piauiense conquista o paladar de consumidores tão exigentes porque é uma bebida diferente, meio “underground”, que as pessoas não conhecem tanto e a acham exótica.

“As pessoas dão bastante valor a isso e também por ser a cajuína muito saborosa. A cajuína é artesanal e, por isso, é bastante valiosa”, disse John Fladt.

Ele informa que a cajuína piauiense é servida em drinks em bares de São Paulo. São drinks de cajuína com gin, cajuína com cachaça, que é uma iguaria que estão desenvolvendo em São Paulo.

“A cajuína não tem adição de açúcar. É só o suco de caju e a gelatina que fazem parte do processo”, afirmou.

A fazenda da família de John Fladt, em Canto do Buriti, também produz castanhas de caju, que estão começando a ser comercializadas no Mercado Municipal de São Paulo, onde tem venda a granel e restaurante famosos, como o Mani, um dos melhores de São Paulo e do mundo, e o restaurante Figo, que usa produtos orgânicos em seus pratos”, diz John Fladt.

Crédito: Efrém Ribeiro

A cajuína é tão sofisticada que a sua logomarca são duas castanhas se beijando, uma versão natural do beijo de duas figuras pré-históricas da arte rupestre do Parque Nacional Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato e Coronel José Dias, no Sudoeste piauiense.

Caju precisa de muito sol para conseguir a doçura ideal

John Fladt disse que o caju precisa de muito sol para conseguir a doçura ideal. “Aqui é o paraíso para o caju, porque tem sol 300 dias por ano. Tem muita insolação e o Piauí é muito bom para a fruticultura, em geral”, falou.

John Fladt declarou que o cajueiro não precisa de chuva em abundância. Por isso, é perfeito para o sertão do Piauí, para a região do semiárido.

Crédito: Efrém Ribeiro

O solo também é adequado para o cajueiro, porque é bastante argiloso, mas também tem uma quantidade de solo arenoso. Essa mistura é boa para o cajueiro.

A Fazenda Santa Fé tem 300 hectares e 25 trabalhadores, que atuam na colheita dos cajus e castanhas e na produção da cajuína, em especial de maio a outubro, o período mais forte da safra e colheita, mas tem uma colheita menor em abril. “Nós produzimos quase o ano todo”, afirmou John Fladt.

Crédito: Efrém Ribeiro

A Fazenda Santa Fé cultiva duas variedades do caju-anão precoce, o 76 e o 226. O 76 começa a dar seus frutos um pouco antes e o 226 entra botando seus frutos. Após a colheita, a variedade 76 entra em sua temporada de dormência e a variedade 226 começa a botar seus frutos.

O 76 começa a botar frutos em maio, vai diminuindo de produção por volta de agosto. Em agosto, o 226 entra forte em sua temporada de produção.

“No período de chuvas, os cajueiros não botam mais frutos”, falou John Fladt, adiantando que os cajueiros produzem durante seu estresse hídrico. Ele sente que está acabando os recursos hídricos para perpetuar a espécie. Por isso, bota os frutos para que tenha a renovação do ciclo.

A Fazenda Santa Fé também está focada na venda de sua cajuína Anjos do Sertão no Piauí, onde tem dois distribuidores, e foca a comercialização das castanhas de caju em São Paulo.

A Fazenda Santa Fé produz cerca de 90 mil quilos de castanhas e 100 mil garrafas de cajuína. A fazenda foi inaugurada em 2008 e era uma fazenda de plantio de campos de eucaliptos.

Trabalhador ganha mais trabalhando na colheita de cajus em Canto do Buriti

Crédito: Efrém Ribeiro

Zidane Moura de Carvalho, de 18 anos, estava em seu primeiro dia de trabalho na colheita de cajus na Fazenda Santa Fé. Ele disse que estava precisando de emprego e procurou a fazenda para saber se dava certo trabalhar na colheita de cajus.

“É meu primeiro dia de trabalho e estou muito satisfeito de ter conseguido o meu primeiro emprego”, afirma Zidane Moura.

Há quatro anos trabalhando na Fazenda Santa Fé, o tratorista Pedro Oliveira dos Santos disse que está ganhando R$ 1,4 mil por mês, o que considera um bom salário para a região.

“Eu trabalho como motorista, como tratorista. É um trabalho para o ano todo. A gente sempre está fazendo uma coisa, a gente sempre tem serviço”, falou Pedro Oliveira.

Jackson disse que antes de trabalhar na colheita de cajus era como ajudante de pedreiro, quando ganhava de R$ 300,00 a R$ 600,00 por mês, e agora ganha R$ 1,2 mil por mês na Fazenda Santa Fé.

“Aqui na fazenda eu tenho trabalho o ano inteiro, e quando trabalhava na construção civil, quando acabava uma obra, ficava desempregado”, falou Jackson Cavalcante, que trabalhava na construção civil em São Paulo (SP), onde ficou seis meses.

“É muito bom trabalhar na própria terra natal. Eu sou casado e é bom conseguir emprego na própria terra e ficar perto da família”, falou Jackson Cavalcante.

A maioria dos trabalhadores já tem experiência no plantio e a colheita de cajus na região.

Karina Pereira falou que agora trabalhava em uma lanchonete em Canto do Buriti, que fechou, e agora está contente por ter um trabalho.

“É um trabalho certo e com pagamento do salário em dia”, falou Santa Maria, que trabalha na limpeza e beneficiamento das castanhas.

Crédito: Efrém Ribeiro

Cajuína do Piauí é tombada como patrimônio cultural

Apesar de raro no Brasil, o processo de tombamento de práticas ligadas à feitura de alimentos existe e, a passos lentos, vem engrossando o livro de bens imateriais do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que incluiu no seu Livro de Registro dos Saberes, em 2014,  a produção tradicional e as práticas socioculturais associadas à cajuína no Piauí. Isso significa dizer que quem recebeu o tombamento não foi a bebida pronta, mas, sim, a forma como ela é feita, garantindo que sabor, cor e propriedades nutricionais sejam exatamente as mesmas com o passar do tempo, evitando a descaracterização do produto.

Com toda a tradição de consumo, a cajuína piauien­­­se só ganhou força como elemento cultural quando a Cooperativa de Produtores de Cajuína do Piauí (Cajuespi) entrou em cena, estimulando a produção artesanal, a sistematização dos processos manuais e o consequente crescimento da cadeia produtiva. Uma das maiores incentivadoras do processo de tombamento.

A cooperativa movimenta um contingente de 2.700 pessoas envolvidas em alguma etapa da cadeia e reúne 120 produtores comprometidos com as normas pós-tombamento.

O resultado do trabalho de formiguinha é visível. Recentemente, a reportagem esteve em Teresina e se deparou com cajuína sendo fabricada em todos os lugares por onde passou. A patrimonialização devolveu à sociedade local o orgulho de ter um produto regional e confere importância à própria cultura.

Ao contrário do que muita gente pensa, a cajuína não é um refrigerante, aliás em nada lembra a bebida gaseificada. No Piauí, sobretudo, por conta do tombamento, a bebida deve ser feita apenas com suco clarificado do caju, cozido em banho-maria, e só. Não são acrescentados açúcar, tão pouco álcool de qualquer tipo. O processo é todo artesanal, sem automatização, apenas fogão, coadores de pano, panelas. O envasamento é obrigatoriamente em garrafa de vidro incolor. Variações de sabor e tonalidade ocorrem, não pelo descumprimento de alguma das etapas de confecção, mas sim pelo tipo de caju usado. Alguns são mais adocicados, outros, mais ácidos.

FONTE: Meio Norte

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