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“Era um pesadelo”: a dor de quem foi vítima de um pedófilo. Saiba como denunciar o crime no Piauí

“É uma cicatriz invisível que só a gente vê”, confessou Dália, sobre as lembranças do passado de abuso sofrido nas mãos do padrasto, dos 8 aos 12 anos. A jovem, hoje com 30 anos, pediu para não ter o sobrenome divulgado, e quase nunca conversa sobre o crime com os parentes porque, segundo ela, é o silêncio que move a família. Lá, ninguém fala sobre pedofilia.

“Antes, eu não conseguia pensar nisso. Eu não queria falar. Hoje, por causa da minha profissão, que é para saúde, encaro como algo que me motiva a ajudar outras pessoas. Mas, minha família ainda não se sente confortável com isso. Todo mundo sente culpa. Minha mãe nunca mais foi a mesma. Por isso, sinto que essa sensação nunca vai passar”, revelou ao OitoMeia.

Dália é uma das milhares de vítimas abusadas sexualmente na infância. No Brasil, o sistema de saúde notificou cerca de 23 mil atendimentos só em 2016. Pelo menos 57% dos casos, elas tinham entre 0 e 13 anos. Outras 6 mil tinham menos de 9 anos, – estatística onde a piauiense está inserida.

Por quatro anos, ela lutou contra o próprio medo e as ameaças do padrasto, que praticava o crime quando a mãe da jovem não estava em casa. Ela revelou à reportagem, que o caso nunca chegou a ser concluído em São Paulo. O homem morreu após um Acidente Vascular Cerebral (AVC), enquanto ainda respondia pelo crime.

“Minha mãe, eu e meus irmãos fomos morar em São Bernardo do Campo [SP] porque ela tinha uma proposta boa de trabalho lá. Passou num concurso público. Ela e o João Carlos se tornaram amigos na academia eu acho, e depois começaram a namorar. Só que por muito tempo, ele pareceu legal”, lembrou.

O PESADELO COMEÇOU NO ANIVERSÁRIO

Ao completar 8 anos, Dália combinou com a mãe de fazer uma festinha de aniversário. O tema escolhido? Castelo Rá Tim Bum, um mega sucesso juvenil da década de 1990 na TV Cultura. Após a educação física do colégio, a menina voltou para casa e mal sabia ela que estaria sozinha nas mãos do padrasto. O abuso aconteceu minutos depois.

“Eu notei do banheiro que ele ficava me olhando botar a roupa. Parecia ansioso. Na verdade, ele já fazia isso há um bom tempo. Só que ele se aproximou como se fosse me abraçar, entende? E me beijou. Eu me assustei e corri, chamei pela minha mãe. Como a gente morava num apartamento, eu desci as escadas do andar, mas ele me puxou dizendo: ‘você conta e eu mato sua mãe. Era brincadeirinha’”, disse, ressaltando que ainda lembra o tom de voz que o ‘monstro’ fez naquele dia.

Nos anos seguintes, ele fazia questão de estar sempre com ela. O padrasto a buscava na escola, ajudava no dever de casa e até lavava as roupas da menina. Dália lembra que ele também gostava de tirar fotos com ela, colocava em porta-retratos pela casa e sempre a ‘representava’ nas questões do colégio.

“Ele não largava de mim. Fazia todas essas coisas e quem estava fora pensava: ‘ah, ele é um paizão, um exemplo’, mas hoje penso que era uma obsessão. Na verdade, não era sempre que ele me beijava ou me violentava. Ele tinha esses ápices, sabe? Meses que ele me tratava normal, meses que ficava assim. Era um pesadelo quando ele voltava a fazer isso, porque ameaçava minha mãe, meus irmãos, a mim”, continuou.”

Durante uma temporada da família no Piauí o crime foi descoberto. Dália revela que após retornar para São Paulo, ele foi preso pela Polícia Civil. E o sofrimento de ter a vida exposta continuou por dois anos, enquanto entrava e saía do Distrito Policial. A rotina dela mudou,  saiu da escola, se afastou dos amigos, saiu de São Bernardo e voltou para a terra onde nasceu. Só em Teresina, já com quase 16 anos, que a família tentou recomeçar.

“Quem denunciou foi minha tia, ela achou estranho o exagero de fotos comigo, o jeito que ele me tratava, olhava e até se referia a mim. Em Sampa [São Paulo], ele foi denunciado, fizeram o processo e tudo, mas ele morreu. No meio disso, a gente descobriu que ele tinha abusado de outras cinco crianças, inclusive uma prima dele quando ele tinha uns 20 anos. Mas, isso levou uns dois anos para ser juntado. Ele nunca cumpriu a pena toda, morreu de AVC. É estranho como o destino funciona”, completou a jovem, que hoje aos 30, trabalha como enfermeira de uma rede de hospitais em Teresina.

ABUSO, PORNOGRAFIA… A PEDOFILIA

Pedofilia. Uma palavra que silencia uma sala, para uma conversa, incomoda indivíduos. Logo eles dizem que isso é um assunto pesado, um tema que mancha a imagem da cidade, dos amigos, das famílias. Mas, já parou para pensar que os casos são reais, que eles estão acontecendo? A cada minuto calados, crianças sofrem com uma ferida aberta e os adultos convivem com uma dor latente.

O termo parece bastante óbvio, mas na verdade não é e até hoje gera discussão. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a pedofilia é um transtorno psicológico onde a pessoa tem desejo, estímulo ou fantasia com crianças pré-púberes, isto é, de até 13 anos. Jamila de Moraes, presidente da Comissão dos Direitos da Criança e do Adolescente na OAB-PI, explica que a pedofilia não é considerada crime. Mas, pode ser punida dependendo de como é exteriorizada [que se dá em várias formas] e quando a ação se insere em alguma tipificação penal.

Trocando em miúdos, para a OMS e aos tribunais do país, nem todo pedófilo é abusador, assim como nem todo abusador é pedófilo. O abusador é quem comete a violência sexual, independentemente de ter ou não o transtorno de personalidade. No caso de Dália, o padrasto dela era pedófilo e exteriorizou o estímulo violentando crianças.

“Nem todo aquele que comete o crime de violência contra criança e adolescente é pedófilo. Isso precisa ser distinguido e gera discussão. Há toda uma análise por profissionais da medicina para se constatar que aquele suspeito de violência sexual tem a patologia. Assim, há dois lados da questão: a jurídica e a médica. Existem pedófilos que vivem na sociedade com todas essas questões na cabeça, outros que coletam, consomem e distribuem pornografia infantil, sem o contato com jovens. Existem aqueles que conversam na internet e são predadores virtuais. Existem outros que chegam ao contato, entrando na esfera criminal do estupro, dos atos libidinosos, lascivos”, explicou ao OitoMeia.

Ainda segundo a advogada, há diferenças para onde os casos são encaminhados. “Se a pessoa cometeu a violência contra a criança, a responsabilidade dela vai para âmbito judicial, pelo código penal. Quando por outra exteriorização sem contato, ela responde pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Muitos violadores acham que não estão cometendo o crime por não ir ‘às vias de fato’ com a vítima, mas há vários enquadramentos. E até aquelas que consomem, distribuem e guardam pornografia infantil como fotos ou vídeos também são punidos”, continuou.

COMBATE E REPERCUSSÃO

Há um ano, um caso chocou Teresina. O dono da escola Minos & Minas foi preso por abusar de três alunas dentro da diretoria. Raimundo Holland foi condenado a 34 anos de prisão após tentar tocar e beijar as estudantes. A Polícia afirmou que o crime acontecia na sala da direção, quando ele as chamava para ‘conversar’. A unidade funcionava há 13 anos e era uma das tradicionais do ensino infantil na capital. Hoje ela não existe mais.

Não muito depois, a Polícia Federal deflagrou a operação ‘Luz na Infância 2’ no Piauí, descobrindo a localização de um dos maiores consumidores e distribuidores de pornografia infantil do país. Ele vivia em Parnaíba, distante 340 km de Teresina, e na residência onde morava havia dezenas de arquivos relacionados a crimes de exploração e abuso sexual de crianças e adolescentes.

PEDOFILIA: É PRECISO DENUNCIAR

Jucier Santos é um dos titulares da delegacia de proteção à criança e ao adolescente (Foto: Lorena Passos/OitoMeia)

OitoMeia levantou pelo menos 20 casos na imprensa piauiense ocorridos nos últimos cinco anos e algo em comum entre eles é: abuso sexual e o violador no círculo social da criança. Quando questionado sobre a possibilidade de existir um ‘padrão’ nas denúncias recebidas, o delegado Juciêr Santos, a conselheira social Socorro Arraes e a advogada Jamila de Moraes afirmam que realmente há muitos casos onde a criança confia ou reconhece o criminoso.

“Principalmente quando são crianças pequenas, elas conhecem, ou já viram, ou são parentes do suspeito. Eles tentam ganhar a confiança para que ela não conte. Assim a criança pode rejeitá-la ou dizer que gosta da pessoa. Há uma manipulação do abusador para conseguir manter a vítima em silêncio, eles fazem chantagens e ameaças também”, explicou o delegado do Departamento de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) em Teresina.”

“Há aqueles que oferecem coisas como bombons, presentes, dinheiro ou que dão oportunidades como viagem, emprego aos parentes, escola e cursos para as crianças que abusam. Uma forma de monitorar a vítima, de estar perto dela, saber se será denunciado ou não. Ele tenta controlar o ambiente dessa criança de alguma forma”, continuou a conselheira, que atende a região Leste de Teresina.

PEDOFILIA: COMO IDENTIFICAR SINAIS?

Segundo a advogada Jamila de Moraes à reportagem, a primeira mudança é no comportamento. “A criança ou o pré-adolescente muda repentinamente de ação: fica muito quieto, agressivo, distante ou ansioso quando antes era o oposto. Há uma mudança repentina de atividade que costumava fazer, por exemplo: evita ir à escola, ao campo, ao clube, à casa de alguém. Elas geralmente não conseguem falar, mas esse é um mecanismo importante para conversar e saber o que está acontecendo”, explicou.

Especialistas falam sobre a importância da atenção e diálogo entre as famílias (Foto: Reprodução)

Mas, o delegado Juciêr Santos também lembra que os sintomas podem indicar diferentes vulnerabilidades provocadas pelo desenvolvimento da criança, sem estar associada a uma violência sexual, por isso o segredo é buscar se informar sobre o problema.

“A maioria dos casos que recebemos são de pessoas cuja renda e situação familiar é de vulnerabilidade. Elas não têm conhecimento claro sobre essas questões, então é uma luta que deve ser abraçada. Falar sobre o assunto nas comunidades, em casa, na escola. É orientar essas crianças e adolescentes para que possam reconhecer, pedir ajuda e entender que aquilo é errado, é crime”, ressaltou o titular do DPCA.

Para a conselheira Socorro Arraes, o ponto ‘x’ é o diálogo aberto entre as famílias.

“É importante sempre conversar, orientar a criança. Ter um bom relacionamento com ela pode ser decisivo na percepção dessas alterações na rotina e até na chance de falar sobre o assunto, qualquer que seja. Aos mais velhos, que já usam computador e celular, deve-se acompanhar as conversas, o que leem ou veem, quando possível, porque há muitos predadores na internet. O importante é ter sinceridade e honestidade nas relações”, explicou à reportagem.”

Foi através da informação, que uma criança deficiente relatou o abuso sexual. O caso, que aconteceu em Teresina anos atrás, marcou a carreira da conselheira.

“Ela era uma menina com deficiência e disse para a mãe que um indivíduo conhecido era pedófilo. A mãe ficou surpresa e perguntou porque ela disse isso e essa garota explicou porque o homem tentou violentá-la: ela leu e viu os sinais, os toques, o que ele dizia para ela, o jeito como ele a olhava e o denunciou. Isso me marcou e me emocionou demais também”, lembrou Socorro Arraes.

POR: Lorena Passos / Oito Meia

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