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Insensibilidade e sensacionalismo da mídia e redes sociais: como falar de suicídio sem causar dor

Quantas pessoas tiraram a própria vida essa semana no Piauí? Quem são, onde moram, como e por que se mataram? A nossa curiosidade mórbida não vai nos levar a nenhum lugar que seja melhor do que um cenário de dor e sensacionalismo. Mesmo tentando acertar, a mídia ainda tem errado sistematicamente ao tratar casos de suicídio. Ao invés de levantar discussões sobre depressão e serviços de apoio e tratamento às pessoas vulneráveis emocionalmente, contribuindo para evitar novos casos, dedicam-se a esmiuçar a vida pessoal de quem já se foi cercado de dor.

Muitas vezes, quem divulga é motivado por pura ignorância ou pela ânsia de dar respostas ao interesse de um público potencial de pessoas que continua compartilhando imagens, dados e métodos relacionados a suicídio. A lógica comercial impera: já que existe um público que quer consumir esse tipo de informação, os meios de comunicação não se furtam a fornecer, mesmo que seja a custa de muito sofrimento de famílias e pessoas expostas de modo colateral.

As falhas são dos dois lados e as consequências terminam sendo mais complexas do que se pode vislumbrar na superfície veloz das informações descartáveis e volúveis da internet.

Com dados alarmantes relacionados ao suicídio no Piauí, elenco aqui, de maneira resumida, apenas alguns dos motivos pelos quais nem imprensa nem o público que se abastece de informações via redes sociais – especialmente nos grupos de Whatsapp – deve compartilhar fotos e informações pessoais específicas sobre suicidas.

1) Divulgar fotos e histórias de suicídio causa mais dor à famílias e amigos – Quem tirou a própria vida, cheio de angústias e desestimulação pela vida, deixou para trás pessoas que o amam. Esses amigos e familiares estão sofrendo, sem compreender em que mais poderiam ter ajudado, culpando-se e sentindo falta do ente querido. Filhos, pais e irmãos que ficaram não merecem que a história (muitas vezes deturpada) de seu familiar seja exposta na internet por desconhecidos, que fazem julgamentos vazios sobre questões que eles desconhecem.

2) Não julgue: você não sabe a história de ninguém: “Não tinha Deus no coração”, “Era falta de amor”, “Foi traído e não aguentou”… as especulações são muitas, as certezas são poucas. Só quem realmente se foi sabe os motivos que desencadearam a iniciativa de tirar a própria vida. Boatos só contribuem para uma espiral que vai tentar justificar o suicídio como sendo fruto apenas de uma escolha pessoal, quando na verdade diversas pesquisas apontam que o fenômeno está relacionado a fatores ambientais, sociais e psicológicos. Na maioria das vezes, os tratamentos psicológicos podem amenizar a depressão e contribuir para mostrar que há outras saídas além da morte.

3) Não divulgue métodos, locais: Há ainda um outro fator de irresponsabilidade envolvido na divulgação de casos específicos de suicídio. Outras pessoas em situação vulnerável, podem se sentir motivadas a realizar o mesmo ato quando são bombardeadas por notícias que detalham suicídios. Acreditando que a morte pode ser um caminho de amenizar um sofrimento, elas inspiram-se em locais e métodos que outros suicidas realizaram.

4) Compartilhe caminhos de ajuda, não bote lenha na fogueira: Se for para divulgar algo sobre suicídio, fale sobre os serviços de apoio psicológico gratuito em sua cidade. Em Teresina, por exemplo, é possível encontrar ajuda através da Fundação Municipal de Saúde (FMS), que mantém há mais de dois anos o Provida, ambulatório especializado no tratamento de pessoas com ideação suicida

O local fica dentro do Centro Integrado Lineu Araújo e disponibiliza psicólogos e psiquiatra para atendimento de pessoas com sofrimento psíquico. Lá são atendidos todos os públicos, inclusive crianças e adolescentes. O local funciona de segunda a sexta, das 8h às 12h e das 13h30 às 17h30. O atendimento é por demanda espontânea, ou seja, não precisa de marcação prévia. Em 2016, o ambulatório de prevenção ao suicídio realizou 3137 atendimentos a pessoas com ideação ou crise suicida.

Interessados podem ainda entrar em contato com o ambulatório por meio dos telefones do Lineu Araújo, que são 3215 4344 e 3215 9131.  Teresina tem ainda os CAPS, que são Centros de Atenção Psicossocial de referência e tratamento para pessoas com sofrimento psíquico. Ao todo, são sete CAPS, dois na zona Norte, sendo um Infantil, três na zona Sul, sendo um AD (voltado para pessoas com problemas pelo uso de álcool ou outras drogas), um na zona Sudeste e um na zona Leste.

5) Quando e como divulgar suicídio?  Não é para falar nunca de suicídio então? De modo algum. Pessoas públicas – como o ex-presidente Getúlio Vargas – naturalmente devem ter suas mortes narradas porque isso faz parte da história de um país. Já pessoas comuns, com seus dramas pessoais e particulares, não devem ser motivo de exposição e devassa depois de mortas.

Se uma determinada instituição, como uma escola, por exemplo, registra muitos casos de suicídio, cabe à imprensa fazer seu papel social e ir atrás dos motivos sociais que somaram-se aos pessoais dos suicidas, alertando também para as opressões psicológicas que os sujeitos podem sofrer nos espaços públicos em busca de um ideal de perfeição.

Ao invés de atender ao sentimento abutre de ver corpos e detalhes macabros de mortes, a mídia pode se comportar no sentido de esclarecimento sobre doenças como a depressão e transtornos de ansiedade, além do bullying e jogos do tipo “Baleia Azul”, que contribuem para motivar pessoas já vulneráveis.

POR: Sávia Barreto / Oito Meia

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