
A popularização dos jogos online e o avanço da inteligência artificial estão redefinindo a forma como crianças e adolescentes se divertem e aprendem. Contudo, essa imersão precoce no mundo digital, apesar dos benefícios, levanta sérios alertas sobre os impactos no desenvolvimento emocional, cognitivo e social da juventude atual.
Nos quartos de muitas casas, o brilho das telas se tornou parte da rotina. Jogos como Roblox, Minecraft e Fortnite ocupam o tempo que, antes, era dedicado a brincadeiras ao ar livre e encontros presenciais. Essa cena comum reflete uma mudança profunda na infância, onde a diversão e o convívio se deslocaram para ambientes digitais.
Infância Conectada: Riscos e Mudanças de Comportamento
O psicólogo e neurocientista Rodrigo Lopes observa o fenômeno com apreensão, explicando que o impacto do uso precoce e excessivo das telas pode ser agressivo, especialmente durante a fase de formação de crianças e adolescentes. A exposição prolongada pode alterar não apenas o comportamento, mas também a percepção da realidade.
“A criança começa a buscar prazer o tempo todo, o que chamamos de comportamento dopaminérgico. Ela vive em busca do estímulo rápido, da recompensa imediata. Isso compromete o autocontrole, a atenção e até a autoestima”, explica Lopes. Ele enfatiza que, quanto mais cedo o contato com telas, mais difícil é estabelecer limites. “Tem pai ou mãe que entrega o celular para o filho com nove meses, o que é um erro. Pode gerar problemas psicológicos e até mesmo oftalmológicos. O ideal é retardar ao máximo o uso e, quando for inevitável, supervisionar sempre”.
Lopes defende que as famílias retomem a convivência real, o contato físico e emocional, que a tecnologia não pode substituir. “A IA não veio para ocupar o lugar de ninguém. A criança precisa do olhar, do toque, da presença dos pais. Isso é insubstituível”, reforça.
Segurança e Limites: O Papel dos Pais
O alerta dos especialistas não se restringe ao âmbito emocional e psicológico. Há também o risco de exposição a pessoas mal-intencionadas, manipulações e abusos virtuais. “É preciso supervisionar o que as crianças fazem, com quem conversam. O ideal é que os pais criem contas compartilhadas e usem aplicativos com controle familiar. A internet é uma avenida sem sinalização e a criança não sabe se proteger sozinha”, alerta Lopes.
Em muitas famílias, a tecnologia virou tema de negociação. Glaydstone Alves, pai de Ana Luisa (8) e Ana Laura (3), tenta equilibrar o uso das telas com a rotina familiar. “Nós tentamos adiar o contato, mas acabou acontecendo, por volta dos dois anos”, conta. Ele percebe agitação e dificuldade para dormir quando o tempo de uso excede o combinado. “No começo, quando estipulamos tempo para uso das telas, houve irritabilidade, agitação e uma certa dificuldade de trocar a tela por brincadeiras mais lúdicas”.
Para Glaydstone, o segredo está nas regras: “Nada de telas nas refeições e antes de dormir. No estudo é permitido apenas para consulta quando não esteja explícito no material escolar. Incentivamos brincadeiras, leituras e conversas no lugar do celular. E, principalmente, procuramos dar o exemplo como pais”.
Esaú Furtado, pai de Bento (5), também lida com o desafio de controlar o tempo de tela. “Ele começou a ter contato com 3 anos, então sempre teve contato com a tecnologia, até porque é inevitável nos dias de hoje. Mas notamos que ele está criando um vício por jogos on-line”, afirma. Bento fica eufórico e ansioso após muito tempo online, comentando constantemente sobre os jogos. Por isso, durante a semana, o acesso às telas é proibido.
O Perigo Invisível e a Confusão de Sintomas
Rodrigo Lopes destaca que a confusão entre fantasia e realidade, amplificada pela IA, é um sinal de alerta. “A IA pode ser uma ferramenta, mas jamais deve substituir o acompanhamento profissional. E, principalmente, nunca deve ser usada por crianças sem supervisão”. Ele recomenda que o uso de tecnologias e redes sociais comece efetivamente após os 12 anos, com tempo limitado. Antes disso, é crucial priorizar o aprendizado físico, o contato com a natureza e as brincadeiras off-line. “A criança precisa correr, dançar, brincar. O corpo foi feito para se movimentar, e o cérebro infantil precisa de experiências reais para se desenvolver de forma saudável”, explica.
Outro perigo colateral é a confusão de sintomas. Crianças chegam a consultórios com diagnósticos de TDAH, ansiedade ou até autismo, quando o comportamento pode ser uma resposta ao tempo excessivo de telas. “A criança que fica muito tempo conectada pode ter insônia, hiperatividade, falta de atenção, irritabilidade. São sintomas que se parecem com transtornos, mas que desaparecem quando o uso é controlado”, esclarece Lopes.
A tecnologia, inevitável e fascinante, é um desafio que exige diálogo, paciência e acompanhamento constante. “Os pais precisam ser o filtro emocional dos filhos. Não adianta só proibir, é preciso explicar, participar, estar junto. Transformar a tecnologia em uma aliada, e não em um substituto da vida real”, conclui Rodrigo Lopes.
Da Redação (Com informações do Portal O Dia)







