
A rotina diária de trabalho é cansativa, expostos ao sol escaldante, ao grande calor, à poeira, e aos perigos do incessante trânsito da cidade, várias ruas são percorridas e limpas por eles durante todo o dia. Quando chega a noite, apesar de cansados se sentem mais aliviados por não terem mais que enfrentar o sol que arde na pele e por estar mais próxima a hora de voltar para casa.
Célia, 42 anos, há dois trabalhando como gari na cidade de Picos, nos fala sobre seu dia a dia : “Acordo seis e meia, começamos ás sete e pegamos até as dez e quarenta, vamos embora e a tarde descemos as três e meia e começamos as quatro horas seguindo até as dezenove ou até o máximo possível, terminando toda a feira vamos embora”.
Em meio ao transitar de carros e pessoas lá estão os garis varrendo as ruas, recolhendo o lixo produzido por todos nós e descartado, na maioria das vezes, sem o mínimo de consideração, e ainda sofrem com o comportamento de algumas pessoas.
Ao acompanharmos alguns desses trabalhadores presenciamos dois momentos desconfortáveis: no primeiro, Célia é quase atropelada por um carro que passa em alta velocidade, fato que a irrita e a faz gritar com o motorista. No outro, ela ouve reclamações de um morador que alega que o trabalho não está sendo feito da maneira correta, “Olha, manda ele (o “carrinzeiro”) juntar isso aí, porque da última vez quem pegou fui eu. Ele fica conversando e não faz o trabalho direito”, disse ele em tom de arrogância. Dessa vez ela mantém a calma e apenas repassa o “comando” ao “carrinzeiro”, que é o seu filho.
Mesmo sendo um trabalho que beneficia a toda a sociedade, muitos desvalorizam aqueles que o exercem e não colaboram para facilitar a realização deste. Célia diz que não há contribuição alguma por parte da população “Mal a gente passa varrendo já está tudo sujo de novo, e às vezes jogam apenas para que tenhamos que varrer novamente”, disse.
Outra gari, que não quis se identificar, reforça o que Célia disse, “Não ajudam em nada, é como se fosse uma cidade de porcos”.
Apesar de todas essas dificuldades, Célia em nenhum momento demonstra tristeza, pelo contrário, sorri, nos trata bem e reponde as nossas perguntas. Ao ser questionada sobre a renda que recebe (apenas um salário mínimo), ela reponde sorridente : “ Pra mim tá bom demais!”.
Mas em um grupo de aproximadamente oito garis, apenas Célia aceitou falar conosco. O motivo? Não sabemos. Talvez por medo de serem repreendidos ou simplesmente por não se sentirem a vontade para falar da profissão.
Para aqueles que trabalham coletando resíduos no aterro sanitário de Picos, localizado no Bairro Val Paraíso, a realidade diária é ainda pior. As dificuldades começam já no momento de se deslocar até o local, pois a distância é muito grande, todos os que lá trabalham reclamam e relatam que quando o lixão se localizava no Bairro Altamira era bem mais fácil para eles, pois ficava bem próximo de onde moram.
Berenice, uma das mais antigas catadoras, que tem 47 anos e trabalha há mais de 30 com o lixo, diz que a distância prejudica muito, e que antes eles tinham barracos montados no local nos quais podiam fazer uma pausa para descansar, e às vezes até dormiam e assim facilitava o trabalho, mas os barracos tiveram que ser destruídos, aumentando assim a dificuldade. “Aqui é ruim demais, porque moro longe. Para ganhar o pão de cada dia tenho que vir para cá de manhã. Quando a gente dormia aqui era melhor, por que agora até os cachorros e os gatinhos que temos aqui estão morrendo de sede e fome. Então não posso abrir a boca e dizer que aqui está bom. A gente tá sofrendo. Tenho que falar a verdade e esperar pela virtude de Deus pra ver se melhora”, disse ela.
Os desafios são muitos, a atividade é árdua e cansativa, são 11 horas (de 7 às 17) de trabalho duro, suportando as altas temperaturas, o sol que agride a pele, a poeira, o mau cheiro que exala em cada canto do local e ainda tendo que dividir o espaço com as grandes pilhas de lixo e as dezenas de abutres que ali estão constantemente.
Berenice fala também que a renda que consegue é muito baixa para um trabalho tão pesado, são apenas 400 reais por mês, vendendo um quilo de resíduos a 40 centavos. Segundo ela os melhores dias para trabalhar são a segunda e o sábado, pois vem mais lixo.
Um dos catadores, José Pedro Herculano, que trabalha há 30 anos coletando resíduos, fala sobre a possível criação de uma cooperativa, da qual ele será o presidente, e diz que com agregação dos catadores à cooperativa qualquer problema que ocorra com eles a mesma será responsável.
Vários familiares de Herculano também trabalham no aterro, inclusive seus dois filhos, José Santos, que tem 21 anos e trabalha há 4 meses como fiscal, regulando o local onde o lixo deve ser jogado e evitando qualquer confusão que possa haver entre os catadores, e Francisco Santos, 23, que exerce o cargo de operador de máquina há aproximadamente 8 meses.
Francisco diz que não encararia o trabalho de catador, pois é uma profissão muito dura, “Não encararia, porque é uma profissão ‘muito ralada’ e nojenta também. Eles trabalham sem nenhum equipamento e alguns até sentam dentro do lixo”, disse ele.
A maioria deles não usa equipamentos de proteção individual, como roupas específicas, luvas e máscaras, mas apenas roupas comuns e um pequeno gancho para auxiliar no manuseio do lixo, fato que os deixa totalmente expostos a contaminações.
Segundo o infectologista Fernando Luiz Maia, o lixo, por atrair ratos, pode ser fonte de infecção de leptospirose, em pessoas que entram em contato com a urina desses animais, também atrai baratas, que podem carregar bactérias que causam diarreia.
Dr. Fernando ressalta que, além disso, o sol em excesso ou em horários inapropriados pode ser causa de queimaduras, insolação e, a longo prazo, câncer de pele, e a poeira pode ocasionar irritação na pele e nas vias aéreas, causando dermatites, rinite ou sinusite. Por isso, quem trabalha com lixo deve usar sempre equipamentos de proteção individual – luvas, capote e máscara.
Segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), é estimada em 371 mil, a quantidade de trabalhadores empregados nos serviços de manejo de resíduos sólidos, sendo que quase 50% estão alocados em cidades com um total de habitantes abaixo de 100 mil.
A maior parte desses trabalhadores está concentrada nas regiões Nordeste e Centro-Oeste, com resultados iguais a 2,36 e 2,35 empregados por 1.000 habitantes.
Por: Josely Carvalho e Saionaria D’arc*
*Discentes do 6º período de Comunicação Social, UESPI.







