Monalysa Alcântara já era uma das favoritas e confirmou o que os ventos da diversidade prometiam no ar. Naturalmente magra, alta como tem que ser (seguindo os padrões da estética dos concursos de misses – e as críticas a isso rendem um novo texto, que esse não pretende abarcar), a nova miss Piauí é jovem, com apenas 18 anos, e é negra. E daí? É o que muitos perguntam, acrescentando o fatídico: “precisa destacar que ela é negra? Qual a necessidade disso?”.
Precisa destacar que ela é negra sim, e eu vou tentar explicar por que.
Temos uma miss Brasil negra, escolhida em 2016 após 30 anos de misses brancas. Escolhemos uma miss Piauí negra, em 2017, disputando com várias meninas lindas, a maioria branca. São dois fatos importantes rumo à exaltação de uma beleza real, que abarca a diversidade e mostra que ser bonito é ser quem se é.
O sociólogo Jésse de Sousa, afirma que as “identidades nacionais” penetram nas “identidades individuais” de modo afetivo e emocional e, portanto, resistente à crítica. Se é assim, então ter uma negra como a mulher mais bonita do Piauí, deve agregar mais um tijolinho na autoestima de muitas piauienses e na luta contra a discriminação e a favor da diversidade racial.
O PIAUÍ É NEGRO
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que o Piauí possui 78,30% de negros ou pardos e apenas 21,6% de brancos. Os dados foram divulgados em 2016. Esse perfil racial é maior do que o brasileiro em geral, com 54,0% de pretos e pardos (54,0%), sendo que essa parcela representa 75,5% das pessoas dos 10% com menores rendimentos (contra 23,4% de brancos).
Resumindo: negros e pardos são maioria em quantidade e ganham muito menos do que as pessoas brancas. Não é coincidência, é racismo. E o racismo é um dos reflexos de séculos de escravidão, onde pessoas com a cor da pele mais escura eram arrancadas de suas terras e trazidas para um lugar onde tinham que trabalhar até morrer, sofrendo maus-tratos, sem pagamento e sem dignidade. No caso das mulheres, trabalhar e serem estupradas.
E quando a escravidão acabou, não houve uma preocupação do Estado autoritário e patrimonialista brasileiro em promover justiça social. Essas pessoas tornaram-se mão-de-obra barata, sem direito à terra e carregando o peso de serem vistas por muitos anos como animais, objetos. Não se apaga uma mancha dessas em décadas. Então se hoje você não pensa em escravidão e acha que racismo é um preconceito que acomete apenas pessoas “ignorantes”, saiba que muito provavelmente está cravado em você, no seu inconsciente, passado através de práticas culturais, religiosas e familiares, o preconceito dos seus ancestrais.
“O mestiço, o mulato no nosso caso, vai ser, muitas vezes, percebido como uma degeneração das raças puras que o compõem, sendo formado pelo que há de pior tanto no branco quanto no negro enquanto tipos puros. Essa era a opinião, por exemplo, de nada mais nada menos que um dileto conselheiro do Imperador Pedro II, o conde francês Goubineau. Todos os grandes pensadores brasileiros desse período, como Euclides da Cunha, Nina Rodrigues ou Oliveira Vianna, serão vítimas dos preconceitos racistas e presas da armadilha que tornava virtualmente impossível vislumbrar um futuro positivo para um povo de mulatos”, diz Jessé de Sousa, no clássico trabalho sobre as classes mais baixas no Brasil.
PADRÃO DE BELEZA É EUROCÊNTRICO

As crianças negras crescem sem se verem na TV, nas bonecas, nos desenhos. Não reconhecem a beleza dos seus cabelos crespos, da pele com mais melanina, do nariz mais largo e da boca carnuda. Negros com pele mais clara, traços como nariz fino e olhos claros, por exemplo, são logo destacados como mais “belos” que os demais negros. Há uma hierarquia na beleza e ela coloca as pessoas de pele mais escura na base, com os mais brancos no topo.
Essas características são sistematicamente domesticadas em salões de beleza e tutoriais de maquiagem que ensinam a “disfarçar defeitos”, como se os traços étnicos fossem erros genéticos, como se não fosse possível ser feliz e belo sendo quem se é na plenitude. Crescem como adultos que não se aceitam, reproduzindo eles mesmos, com os próprios filhos, o preconceito arraigado que sentiram na pele.
EXALTANDO QUEM SOMOS
Recém-eleita Miss Piauí 2017, Monalysa Alcântara, chorou, sorriu, sentiu o peso de um título tão grande (Foto: João Albert/OitoMeia)
Na letra de “Formation”, a cantora norte-americana Beyonce exalta suas raízes: “Você mistura esse negro com aquela crioula e faz uma garota rebelde do Texas. Eu gosto do cabelo da pequena herdeira, com o cabelo de bebê e afro. Eu gosto do meu nariz de negro com as narinas do Jackson Five”.
Na época do lançamento do clipe, a canção foi um choque para um Estados Unidos com casos de racismos institucionalizados em assassinatos sistemáticos realizados pela própria polícia (que prende mais e mata mais negros do que brancos, muitas vezes sem motivo aparente, alertando para o preconceito de cor associado à ideia de criminalidade).
Que possamos então, também celebrar a nossa realidade, a nossa raiz, a piauiensidade de Monalysa, com seus cabelos cacheados e a cor que mais reflete quem somos como povo, quer queiram, quer não.
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Beyonce, no clipe de Formation: exaltação das raízes negras (Foto: Reprodução)
FONTE: Oito Meia









