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40 minutos do seu dia para salvar uma vida: por que é importante doar sangue durante as férias?

Enquanto o número de vítimas em hospitais aumenta nos hospitais devido a crescente em acidentes no fim do ano, o número de doadores de sangue diminui no estado por conta do período de férias

Os ponteiros do relógio batiam no número 10 quando a estudante de direito, Isabela Thaísa Silva, 25 anos, chegou ao Centro de Hematologia e Hemoterapia do Piauí (Hemopi). A garota, que naquela data estava com uma viagem marcada para o dia seguinte, adentrou o prédio vermelho, e a cada passo em direção a sala que fica no fim do corredor, um único sentimento: empatia. Ela estava ali para doar sangue, obviamente. Um ato voluntário e que como recompensa terá apenas a certeza de contribuir com a saúde do próximo.

Isabela Thaísa Silva, 25 anos, doadora de sangue fidelizada (Foto: Ricardo Morais/ OitoMeia)

Aliás, o período de férias é um entre os quais os números de acidentes mais cresce no Piauí. Em 2018, a Polícia Rodoviária Federal (PRF-PI), registrou 24 feridos em rodovias do estado em apenas quatro dias, durante a Operação Fim de Ano. Estas estatísticas são consequências das mais de 300 autuações, sendo 223 pelo não uso do capacete, 119 por ultrapassagem ilegal e 48 por embriaguez. Em suma, irresponsabilidade ao volante. A maior parte dessas vítimas acaba sendo direcionada ao hospital, onde necessitam de transfusões de sangue em meio ao tratamento médico.

Por outro lado, nos hemocentros do Piauí, o número de doadores de sangue tende a diminuir em até 30% durante as férias, e principalmente, em feriados prolongados. É uma conta que não fecha. Mais pacientes chegando aos hospitais e menos estoque de doadores de sangue. Essas vítimas acabam contando com a empatia e mobilização de pessoas como Isabela Thaísa Silva e Hortência Rocha, assistente social da equipe de captação do Hemopi, que será apresentada nesta reportagem logo mais.

“É uma coisa que sempre faço. Acho que é muito importante, acho que as pessoas deveriam ter essa motivação porque ajuda tantas outras. Eu vou viajar amanhã, mas não poderia ir sem antes doar sangue. No final de ano tem muitas festas e os hospitais acabam que precisando muito dessas bolsas de sangue que posso fornecer. Acho que é algo que todo mundo poderia e deveria fazer”, relatou ao OitoMeia a estudante de direito. 

Número de acidentes aumenta no período de férias e feriados (Foto: Édrian Santos/OitoMeia)

40 MINUTOS PARA SALVAR UMA VIDA

“Para encher uma bolsa de sangue são cerca de cinco à sete minutos. No total, ao todo, o processo dura menos que 40 minutos”, explica Hortência Rocha. A assistente faz parte do núcleo que controla a demanda de sangue que entra e que sai para o que ela chama de “rota do sangue”. Nesse trajeto, hospitais públicos, privados, maternidades, clínicas no interior e na capital são abastecidas com mais de 4.500 bolsas de sangue por mês. Através de um trabalho organizado e integrado, esta equipe garante que o líquido, vital para qualquer ser humano, não falte nos hospitais do Piauí. Mas para que isso aconteça, contam com a ajuda de cerca de cinco mil doadores mensais que frequentam os centros de captação.

“Após a doação, a recuperação dos componentes no corpo do doador é rápida. Em dois dias já está tudo reposto”, continua a captadora. “E, principalmente, não dói”, enfatiza enquanto ri.

O pequeno motivo ainda é razão para que muitas pessoas passem longe de centros de captação. No Brasil, a doação de sangue ainda é cercada de “mitos”. Apenas 1,6 da população tem este hábito, segundo o Ministério da Saúde. Nesse mesmo contexto, o país já registrou casos onde vítimas morreram pela falta de doação dele. Inclusive, no Piauí. No Hospital São Marcos, diversas crianças ficaram com o tratamento em atraso por causa do baixo estoque, conforme matéria divulgada pela TV Clube, em 2015.

O Piauí possui 3,195 milhões de habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Levando em conta esses dados, apenas 30% dos piauienses tem o hábito de doar sangue. O número, no entanto, é o bastante para suprir as demandas do estado, garante Hortência Rocha. A preocupação está em períodos em que o número de integrantes deste grupo fiel diminui, quando os doadores viajam, durante férias e feriados.

“Geralmente, em meses de julho, dezembro, janeiro e feriados prolongados, geralmente feriados onde se pode enforcar as sexta-feiras. Assim, diminuí-se o número de doadores e aumenta o número de vítimas por conta de possíveis acidentes em estradas. Geralmente, tende a diminuir até 30% nas doações”, pontuou a assistente social.

Esta é a assistente social do Hemopi, Hortência Rocha (Foto: Ricardo Morais/ OitoMeia)

A SOLIDARIEDADE DO POVO PIAUIENSE

A queda gradativa não é uma exceção destas férias e nem do Piauí. O fenômeno se repete todos os anos e em todo o país. Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam que o Brasil, apesar de coletar o maior volume em termos absolutos na América Latina, doa proporcionalmente menos do que outros países da região, como Argentina, Uruguai ou Cuba.

Doação deve ser diária, pois durabilidade de algumas bolsas chega a ser de três dias (Foto: Ricardo Morais/ OitoMeia)

Por conta disso, já é uma preocupação constante da equipe. Segundo a assistente social, a medida em que percebem a diminuição, as campanhas de captação são divulgadas. E Hortência enfatiza: apesar do problema da queda nas doações não ser uma particularidade do estado, a solidariedade do piauiense é, principalmente, no interior do estado.

“Sempre que nós precisamos e chamamos, eles vem”, pontua. “Temos inúmeros relatos de vezes em que fazemos campanhas de forma itinerante e vemos a solidariedade do povo. Tem gente que via a presença do Hemopi através de um convite na rádio e já corre para fazer a doação ‘olhe só porque vimos você falando todos nós vamos doar’. Temos muitos relatos assim. E vejo a fidelização desses doadores, eles estão presentes em todas as campanhas”, conta ao explicar uma experiência de captação que teve em uma comunidade interiorana do estado.

PERFIL DO DOADOR NO PIAUÍ

A auxiliar de serviços gerais, Juscilene Costa, 43 anos também é doadora fidelizada no Hemopi (Foto: Ricardo Morais/ OitoMeia)

O perfil do doador e a conscientização acerca da importância de doar sangue também tem mudado e se expandido ao longo dos anos. A fidelização deste tipo de prática tem começado cada vez mais cedo e se tornado popular entre os jovens. As pessoas que doavam há 30 anos já não são as mesmas que hoje frequentam constantemente os hemocentros.

“Avaliando de quando comecei na captação o perfil do doador de sangue mudou. Antigamente, há 40 anos quem doava sangue era o pessoal do exercito, o Corpo de Bombeiros, e pessoas de classe social mais baixa. Essa realidade, agora mudou. O número de doadores aumentou, assim como esse perfil e fidelização também. Temos adesão de vários estudantes da rede pública ou privada, grupos de igreja, empresas e instituições. A população piauiense de modo geral é muito solidária”, descreveu.

E já que voltamos a falar sobre solidariedade nesta reportagem, posso descrever mais um detalhe sobre o dia de Thaísa Silva. Enquanto o OitoMeia entrevistava a equipe do Hemopi, a estudante também interrogava atenta uma captadora sobre quando poderia voltar ao hemocentro para realizar mais uma doação. A expectativa é de que ela possa realizar o processo novamente a tempo do carnaval. A justificativa é a mesma dada para a doação antes das férias: o aumento no número de acidentes nas estradas durante as festas.

REQUISITOS PARA DOAÇÃO DE SANGUE

Com esta matéria o OitoMeia espera inspirar mais pessoas a adotarem a mesma atitude de Thaíssa, assim a seguir estarão listadas os principais requisitos para doação de sangue:

  • Estar em boas condições de saúde e descanso;
  • Ter entre 16 e 69 anos (menores, a partir dos 16 anos podem doar acompanhados de um dos pais ou responsável legal; maiores de 65 anos só podem doar se já doaram antes dos 60 anos);
  • Pesar no mínimo 50 kg;
  • Estar alimentado (evite ingerir alimentos gordurosos);
  • Apresentar documento oficial de identidade com foto;
  • Não ter tido hepatite após os 10 anos de idade;
  • Não estar utilizando medicamentos;
  • Não estar resfriado ou com gripe;
  • Não ter tido doença de Chagas, Sífilis, Malária ou ser soropositivo de AIDS;
  • Não ter feito tatuagem ou colocado piercing nos últimos 12 meses;
  • Não estar grávida ou amamentando.
A sede do Hemopi em Teresina fica localizada na Rua Primeiro de Maio, 235, Centro Sul (Foto: Ricardo Morais/ OitoMeia)

FONTE: Oito Meia

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