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GENTE DA NOSSA GENTE| Daniel Feittosa: das lutas e dificuldades à realização do sonho de ser músico

Daniel ganhou o prêmio de artista piauiense mais ouvido no Palco MP3 no ano de 2015. As músicas que lhe renderam o prêmio fazem parte do seu disco promocional gravado em 2014.

Daniel da Silva Feitosa, 34, é um músico natural de Jaicós, que vive em São Paulo-SP. Ele acumula várias composições e se apresenta por onde vive, mas nunca esqueceu suas origens, fazendo questão de contar suas lembranças do tempo em que viveu em Jaicós. Com uma voz inconfundível, o artista jaicoense vem aos poucos conquistando espaço na música e atraindo cada vez mais público.

O músico cresceu em família humilde, lutou muito para realizar o sonho de infância. Conta que passou por muitos perrengues. Apesar das dificuldades enfrentadas, se formou em Música na faculdade FIAM-FAAM-FMU e hoje ministra aulas em escolas e faz shows em eventos, bares e restaurantes de São Paulo.

“Costumo falar que a música escolhe você e não tem saída. Eu tentei fugir dela um tempo, mas eu sempre retornava a ela. Eu acabei abraçando ela. Eu comecei muito tarde porque eu não tinha condição de ter instrumento. Fui ter um violão já com quase 19 anos”, conta.

O filho de José Santana Feitosa (Seu Zé Bispo), e Maria Jesus da Silva Feitosa (Dona Jesus) teve uma infância humilde na comunidade de Lagoa Grande, que na época fazia parte do município de Jaicós, hoje Massapê-PI. Conta que quando tinha 7 anos precisou se mudar para a zona urbana de Jaicós, com sua mãe e dois irmãos mais velhos, para que fosse possível estudar, já que não havia escola na sua localidade.

Em Jaicós, morava na casa do avô, Florentino Pereira, o seu Flor, que é um comerciante conhecido em Jaicós e região. Desde pequeno, Daniel acompanhava o avô na tradicional feira de Jaicós, onde trabalhou por muito tempo. Conta que comprava castanha, carregava sacos de castanha, comprava cera de abelha, dentre outras coisas. Somente aos 10 anos retornou para Lagoa Grande, onde estudou os anos seguintes.

Em 2004, teve que se mudar para São Paulo, acompanhando sua mãe que estava com problemas de saúde. Neste período fez diversos questionamentos internos e pensou em desistir do sonho de ser músico. Chegou a um processo de depressão quando tinha 19 anos, mas o que lhe deu forças sempre foi o sonho do menino de ser músico.

Em 2006, fez um ano no Conservatório Villa Lobos, teve que parar o curso de violão clássico por ser muito caro, pois tinha que ter computador e um violão profissional de valor muito alto. O jovem não tinha condições para ter esses objetos e precisou desistir do curso.

Em São Paulo, passou a procurar emprego. O seu primeiro foi numa metalúrgica. Trabalhava durante o dia e tocava à noite. Sempre teve uma rotina pesada, acordando às 4h da manhã para lutar pela sua sobrevivência na capital paulista.

Tocou em vários lugares. Em 2009 passou a tocar no Bar do Chico, um bar bem conceituado, com atrações da MPB. Lá ele ainda faz os seus shows atualmente.

O artista conta que trabalhou em diferentes áreas. O seu último trabalho fora da música foi na área de vendas, como promotor do Banco Santander. Permanecia tocando à noite. Nessa época, a música já compensava mais que o trabalho do banco. Foi aí que descobriu a faculdade de Música, ingressou no curso em 2013 e se formou em 2017.

Daniel é compositor de músicas como “Maria Helena”, “Vou cuidar de Você”, “Criança Indefesa”, “Ser” e “Na Sua Teia”. A última que gravou foi “Minorias”, caracteriza-se por uma crítica social, abordando nessa música assuntos como preconceito e inversão de valores. Essas e outras músicas estão disponíveis no seu canal no Youtube e no Palco MP3.

Daniel ganhou o prêmio de artista piauiense mais ouvido no Palco MP3 no ano de 2015. As músicas que lhe renderam o prêmio fazem parte do seu disco promocional gravado em 2014. Em 2018, lançou o EP “Ser”, com músicas disponíveis na plataforma Palco MP3 e You Tube.

“Minha ligação com Jaicós é enorme. Tenho muitos amigos. Eu vivi uma das melhores épocas em Jaicós, época dos grandes clubes, como o Everest, Himalaia, Telhoça. Conheci o calçadão antes de ter asfalto, era só morro. Era o point da galera todo sábado e domingo. Os festejos de Jaicós e tudo isso é parte de mim. Minha ligação com Jaicós é muito forte”, acrescentou.

Esta é mais uma matéria que cumpre com a missão desta coluna, que é mostrar histórias de jaicoenses que nos inspiram com suas vidas. Daniel tem uma história de vida cheia de sonhos, de muita luta, de determinação e de persistência. Por muitas vezes pensou em desistir. Ouviu muitos conselhos negativos, porém usou essas vozes como sua maior motivação para vencer na vida. Essa história nos faz ver que ser feliz é um estado de espírito alcançado por quem se faz forte acima das circunstâncias. E que o sucesso está em vencer os limites impostos por essas circunstâncias.

O que a música representa para você?

A música para mim é uma necessidade. Preciso cantar, produzir, inventar para poder existir. Faz parte da minha existência. A música para mim é uma religião. Eu não sei precisar quando que eu descobri música. Eu sempre falo que a música a gente não escolhe ela. Se fosse para escolher, a gente não escolheria música, porque quem realmente ama música e respeita música sofre muito com isso, porque é um processo complicado.

Quando e como descobriu seu talento para a música?

Eu já cantava com um primo meu. O sogro dele tinha um teclado. A gente montou um grupo e fazia uns forrós. Eu sempre inventava. Naquela época tinha muito forró romântico e tal e eu não queria cantar só aquilo. Então eu pegava música de Roberto Carlos, de Tim Maia, colocava em forró. Eu comecei a cantar pra a galera ver por aí (por Jaicós), mas eu sempre cantava muito, sonhava muito com música. Sempre acreditei muito que eu poderia ser um músico. E aconteceu uma coisa bem louca, quando vim pra São Paulo com minha mãe doente. Eu tive que abandonar a música por um tempo, me fez muito mal. E quando eu tava pensando em desistir dela, eu vi um vídeo de uma tia minha, eu tinha uns 8 ou 9 anos no vídeo, não lembro. Eu vi aquele moleque pequenininho, com short e sem camisa. Ela perguntou o que eu queria ser, e aquele moleque falou que queria ser músico. Se ele não fosse músico, não queria ser mais nada. Isso mexeu comigo por que era o momento que eu estava pensando em desistir, queria fazer outras coisas pra ganhar grana. Infelizmente, no mundo a gente precisa dessas coisas. Só que aí esse moleque me puxou de volta para a música. A música te escolhe, não tem jeito. É uma atração muito forte.

Como você começou a tocar e compor?

Eu comprava aquelas fitas virgens da época e ficava muito tempo acordado, ouvindo as rádios para gravar música nas fitas. Uma coisa também que foi importante, quando comprei o violão, com 18 ou 19 anos, foi ter achado o livro do Roberto Carlos com 200 músicas cifradas. Não sabia o que era cifra, o que era nada. Aprendi a tocar como autodidata. O violão era horrível e tive que reformar o violão para poder tocar. Muita gente ia lá pedindo pra eu desistir, mas eu continuava, era teimoso. Na verdade, essas pessoas eram mais importantes que as que davam apoio, pois cada vez que falavam que não era para mim é que eu insistia naquilo. Então com 6 meses eu já tocava um monte de coisa e comecei bem, comecei tocando as músicas do Roberto Carlos. Eu já compunha muito. Eu sempre tive muita visão crítica sobre o mundo. Eu escrevia sobre muita coisa que me afetava. Comecei a compor lá pelos 14 ou 15 anos. E tem muita coisa que escrevi que não gravei. A minha criação parte da necessidade, nunca fiz uma música pensando em fazer sucesso. Acho que esse é um dos maiores erros meus, porque eu faço aquilo que eu acho que tenho que fazer. Eu faço aquela música que eu não encontro, então eu tento criar essa música. Que eu sinta falta dessa música. É bem por parte dessa necessidade de fazer uma coisa nova.

Qual sua maior inspiração?

Tem muitas inspirações para mim. No começo, eu me lembro de ouvir muito o Raul Seixas. Eu ouvia muito também uma banda que me jogou pra música mesmo, foi Legião Urbana. É uma banda que tem muitos assuntos bacanas. Só que depois descobri muitas coisas boas, eu ouço de tudo. Ouço muito Gonzaga, Dominguinhos, Alceu. Muito tudo.  Da bossa nova, do rock, do samba, sou bem diversificado. Agora minha maior inspiração não é nem da música, é de um brasileiro nato que me emociona, sou muito fã do Airton Sena. Era uma cara que dava muita esperança pra gente. É um cara que me emociono quando falo. É uma inspiração, uma força enorme mesmo, que a gente teve o prazer de conhecer, pelo menos na televisão.

Como começou a sua vida em São Paulo?

Minha vinda a São Paulo foi bem complicada. Primeira vez era aquele moleque que tinhas sonhos. Vim de carona com meu tio Elídio. Eu sempre quis conhecer São Paulo. Odiei São Paulo no início porque não conhecia ninguém pra sair. Era no Heliópolis na época. Já no Piauí eu era bem conhecido, tinha amizade com todo mundo. Eu era bem quisto e já trabalhava com alguns eventos (em Jaicós). Colocava evento de música para vender bebida. Eu decidi construir minha vida no Nordeste. Só que em 2004 minha mãe teve um problema no olho, foi internada em Teresina, mas tive que vir com ela para São Paulo. Foi um processo bem complicado. Isso levou quase um ano. Infelizmente, ela perdeu a córnea. Infelizmente, depois ela teve que retirar uma mama. Foi um processo bem complicado para mim. Entrei em conflito comigo mesmo. Pensei em desistir de música. O que me deu força para sair foi ver o vídeo da criança dizendo que queria ser músico. Quando minha mãe ficou boa, entrei em processo de depressão, porque eu tinha 19 anos, cuidando de um mundo. Eu trabalhava numa metalúrgica e acordava às 4h da manhã. Eu tinha que trabalhar, cuidar da minha mãe no hospital e cursar o Ensino Médio à noite. Eu só comecei a ter condição de tocar e ter minha vida de artista em 2007, por aí. Comecei tocando em churrascos e aniversários.

Como é sua rotina hoje em São Paulo?

Hoje dou aula de música em dois colégios. Faço show em final de semana e durante a semana. Toco muito. Faço muitos (shows) em restaurantes e barzinhos. Por mais que eu consegui gravar um CD e ganhar o prêmio do Palco MP3, ainda é difícil cantar as minhas músicas. Porque pra que a gente tenha uma abertura no mercado fonográfico, você tem que investir muita grana e ter uma equipe muito forte. E eu sou sozinho. Tenho que produzir, gravar, fazer arranjo e pensar na divulgação. É muito complicado. Então faço meus shows e estou preparando mais um disco voltado para coisas da minha terra. A única coisa bacana de ser músico é que você faz o que você gosta. Você não tem a sensação de estar trabalhando, mas o músico trabalha muito. Tem que estudar muito para preparar repertório novo. Você é obrigado a estar se atualizando. Minha rotina é bem puxada.

Qual conselho você daria a quem tem um sonho e enfrenta dificuldades?

O conselho é: Segue em frente! “O não”, como diz os dizeres, “você já tem”. Então tem que brigar pelo “sim”. Dificuldades têm para todo mundo. As dificuldades vão estar aí. Desistir não é uma opção. Meu conselho para quem tem um sonho e tem dificuldade é: “Leva no peito e nunca deixe de sonhar”. Sonhar é de graça e é necessário.

Por Daniel Gomes

Bacharelando em Administração pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), funcionário público. Entusiasta de questões ambientais, participa de projetos do Núcleo de Economia Circular, Inovação e Sustentabilidade (NECIS) em Petrolina-PE.

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